quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Síndrome de Tourette

O que é

A síndrome de Tourette (ST) é caracterizada pela presença de tiques motores e vocais (movimentos ou barulhos súbitos, repetitivos e rápidos) que interferem significativamente na vida do paciente. Ocorre em 1% da população e costuma manifestar-se na infância, entre dois e quinze anos de idade. Os principais tiques são:- Motores: piscar os olhos, virar a cabeça, encolher os ombros, fazer caretas, estirar a língua, fazer gestos obscenos (copropraxia), beliscar-se ou bater-se (movimentos autoagressivos) entre outros;- Vocais: pigarrear, fungar, emitir sons (hum, hum, por exemplo), repetir palavras ou frases logo após ouvi-las (ecolalia), repetir várias vezes a mesma palavra (palilalia), dizer palavras obscenas (copropalia), dar pequenos gritos, etc.

Qual a causa da ST?

A ST tem base genética, com desencadeantes ambientais. Seu início pode ocorrer logo após grandes estresses físicos ou emocionais. Doenças infecciosas (encefalite e coreia de Sydenham, por exemplo), episódios febris e outros agravos físicos estão presentes no início do quadro em 26% dos casos.

Como se diagnostica a ST?

Para que a ST seja considerada, os tiques precisam ocorrer pelo menos durante um ano, sem que tenha havido um intervalo livre de tiques por mais de três meses. O diagnóstico deve ser realizado em uma consulta médica psiquiátrica, na qual é avaliado o histórico do paciente e observado os tiques. É necessário excluir causas neurológicas para os tiques. É comum a ST estar associada à outros transtornos, como o TOC e o transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

Como tratar a ST?

As possibilidades de tratamento incluem: medicação, terapia psicoeducacional e, em um número ínfimo de casos refratários, cirurgia. É importante ter em mente que: 
1) 100% de melhora é raro;
2) a resposta ao tratamento é individual, cada pessoa responde às medicações e/ou as tolera de forma diferente;
3) as medicações precisam de tempo para fazer efeito (pelo menos um a dois meses);
4) as doses podem ser individualizadas;
5) pode ser necessária a combinação de medicamentos;
6) tiques oscilam ao longo do tempo, com e sem medicamentos;
7) pode ser necessário psicoterapia para o paciente e seus familiares;
8) os casos que precisam de cirurgia são a minoria;
9) paciência e um médico experiente no acompanhamento são fundamentais.

Transtorno da Ansiedade Social (TAS)

O que é ansiedade social?


A ansiedade social é o medo de situações que envolvem interação com outras pessoas e está relacionado ao medo e à ansiedade de ser negativamente avaliado ou julgado por outras pessoas. Os seres humanos têm diferentes traços de timidez ou extroversão, e algum grau de ansiedade na interação social está presente em grande parte das pessoas e pode até ser considerado positivo.

O que é transtorno de ansiedade social (TAS)?


É um transtorno crônico (não desaparece por conta própria). Nele, a ansiedade social persistente causa sofrimento e prejuízo significativos para o indivíduo. Exemplos de situações que geram ansiedade importante no TAS incluem: ser apresentado a outras pessoas, ser provocado ou criticado, ser o centro das atenções, ser observado enquanto faz algo, como comer, falar ou escrever, relacionar-se com figuras de autoridade, encontros sociais, especialmente com estranhos, estar em círculo onde chega a sua vez e a pessoa precisa dizer algo, início de relacionamentos românticos. As manifestações fisiológicas que acompanham a ansiedade social podem incluir medo intenso, coração acelerado, vermelhidão ou rubor, transpiração excessiva, garganta e boca secas, tremores (medo de pegar um copo de água ou usar utensílios para comer), engolir com dificuldade e contrações musculares, particularmente em torno do rosto e pescoço. Constante, intensa ansiedade que não desaparece é a característica mais comum.

As pessoas com TAS sabem que sua ansiedade é irracional e não faz sentido, mas pensamentos e sentimentos de ansiedade persistem e não mostram sinais de ir embora.

Quando vistas pelos outros, as pessoas com ansiedade social são muitas vezes interpretadas como sendo tímidas, quietas, inibidas, distantes e desinteressadas do contato social. Paradoxalmente, as pessoas com ansiedade social querem fazer amigos, ser incluídas em grupos, e serem envolvidas em interações sociais. Embora as pessoas com ansiedade social queiram ser amigáveis, abertas e sociais, é o medo (ansiedade) que as mantém afastadas.

Como é o tratamento do TAS?

A medicação é útil para muitos portadores de TAS, sendo que a classe de medicação mais usada são os antidepressivos. Vários estudos indicam que a associação da medicação com modalidades ativas e estruturadas de psicoterapia, como a terapia cognitivo-comportamental, é a que apresenta mais benefícios a longo prazo.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Transtorno do Pânico

Transtorno do pânico: o que é.

Um ataque de pânico é uma crise de ansiedade intensa, de início súbito, repentino, em que há muito medo ou desconforto intenso, que dura cerca de dez a vinte minutos, resolve-se em aproximadamente sessenta minutos e pode cursar com pelo menos quatro dos seguintes sintomas:
Medo de morrer;
Medo de enlouquecer;
Sensação de falta de ar ou sufocação; 
Suor frio ou calafrios;
Tremores;
Palpitações ou sensação de aceleração cardíaca;
Dor ou desconforto no peito (sensação de angústia);
Náuseas ou desconforto abdominal;
Tonturas, sensação de desmaio iminente;
Dormência ou formigamentos;
Sensação de estar em choque;
Sensação de estar fora de si ou desconectado da realidade;

Como muitos dos sintomas do ataque de pânico são similares aos das doenças cardíacas, distúrbios da tireoide ou pulmonares, não é incomum que muitos pacientes procurem emergências clinicas quando experimentam os sintomas, convencidas de que possuem alguns problemas que lhe ameacem a vida.

O transtorno de pânico, portanto, acontece quando há uma repetição dos ataques de pânico e a pessoa fica preocupada com a possibilidade de ter um ataque de pânico em situações inesperadas ou constrangedoras. Alguns portadores do transtorno passam a evitar situações ou lugares em que haja a possibilidade de apresentar um ataque de pânico, com risco menor de serem socorridas ou de procurarem ajuda, o que costuma-se chamar de agorafobia. A agorafoia acontece, quando o individuo passa a evitar lugares públicos, fechados, com quantidade maior de pessoas, onde a fuga imediata pode ser dificultada, como supermercados, shoppings, ônibus, igrejas, festas, etc. Uma a cada três pessoas que contrai o transtorno do pânico acaba desenvolvendo agorafobia.

A causa do transtorno de pânico é uma somatória de fatores genéticos e ambientais, sendo duas vezes mais comum em mulheres que em homens. Estudos indicam desregulação de mediação das respostas de medo e ansiedade de regiões cerebrais em portadores do transtorno.

O tratamento é feito, usualmente com psicoterapia associada a medicações que inibem a ocorrência de novos ataques e que inibem as alterações cerebrais subjacentes, fármacos esses tradicionalmente chamados de antidepressivos. Em alguns momentos, principalmente no inicio do tratamento, pode-se lançar mão de medicamentos chamados ansiolíticos para serem usados nos momentos dos ataques e reduzirem momentaneamente os sintomas ansiosos, melhorando a adesão ao tratamento e inclusive a adesão à psicoterapia.

Entendendo a Depressão.

Depressão: entender para tratar.

A depressão é caracterizada por estado de humor depressivo e/ou falta de interesse, motivação, redução na energia mental e física, baixa autoestima, sentimentos de menos valia, inutilidade, ausência da capacidade de sentir prazer, alegria e felicidade. Pode apresentar ainda alentecimento neuropsicomotor (movimentação e pensamentos mais lentos), alterações no padrão de sono, do apetite, e da função sexual. Pode haver ainda, tendência ao isolamento social e dificuldades de expressar o que está sentindo.

Frequentemente, o indivíduo pode apresentar a sensação de que a vida perdeu o sentido e pensamentos de morte e comportamento suicida podem aparecer. Nesse estágio, o paciente está precisando de ajuda médica.

O quadro depressivo varia sensivelmente de acordo com cada pessoa e é comum que haja oscilação do quadro com o passar do tempo, por exemplo, o indivíduo pode se sentir bem durante um período do dia, mas durante outra fase, apresentar sintomas depressivos. Isso pode atrasar a busca por ajuda médica, sendo necessária a intervenção de familiares para que isso aconteça. 
A depressão pode constituir-se de um único episódio, mas é comum a recorrência de episódios depressivos ao longo do tempo. O transtorno depressivo compromete seriamente as relações afetivas, profissionais, acadêmicas e cognitivas, comprometendo inclusive a saúde clínica do indivíduo.

O aumento do estresse relacionado às demandas da vida moderna são uma das causas da depressão que tem origem multifatorial, dependendo de fatores genéticos e hereditários, fatores ambientais, como o luto por uma perda de ente familiar ou de um emprego, experiências situações traumáticas, como a violência. A depressão pode aparecer ainda de uma condição clínica, pelo uso de algumas medicações ou ainda pelo consumo de substâncias psicoativas.

O diagnóstico deve ser feito por um médico, psicólogos e outros profissionais de saúde podem identificar sintomatologia depressiva e encaminhar ao especialista para confirmar o diagnóstico.

Os sintomas devem estar presentes por, no mínimo, duas semanas, causando prejuízo em áreas importantes da vida do indivíduo, sendo necessária detalhada investigação clínica para descartar outras doenças como causadoras dos sintomas.

Atualmente, há recursos diversos e eficazes para se tratar a depressão. Mesmo nos episódios depressivos leves já podem ser disfuncionais. O tratamento, portanto, deve ter como foco a melhora e recuperação global, que geralmente se faz com uso de medicamentos associados a psicoterapia.
No primeiro episódio, o tratamento dura cerca de oito meses a um ano, e nos casos de depressão recorrente, o tratamento dura por um período bem maior para evitar recaídas e recorrência de novos episódios da doença. 

A manutenção de hábitos de vida saudáveis é fundamental e inclui um cuidado especial com a rotina de sono, alimentação, prática de atividades físicas e abandono ao uso de álcool e substâncias psicoativas. 

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Como é realizado um atendimento psiquiátrico?

Diagnóstico

O Diagnóstico em psiquiatria é eminentemente clínico e realizado a partir do acolhimento da queixa principal do paciente, associada a uma Entrevista Psiquiátrica pormenorizada  e um Exame do Estado Mental bem detalhado.

Com essas três ferramentas, na grande maioria dos casos, o psiquiatra experiente está apto para diagnosticar os mais diversos tipos de transtornos mentais. Importante lembrar que o diagnóstico psiquiátrico é embasado em suspeitas ou hipóteses diagnósticas, que podem se manter ou se modificar, no decorrer do acompanhamento clínico. Por isso, costumamos inferir que o diagnóstico psiquiátrico não é uma fotografia, mas uma filmagem, daí a importância do acompanhamento psiquiátrico seriado.

Durante o acompanhamento, poderemos nos munir de avaliações laboratoriais, exames de imagem, pareceres e  avaliações de outros médicos especialistas, no intuito de detalhar a investigação diagnóstica e afastar outras causas clínicas que possam estar coexistindo ou sendo as responsáveis pelo quadro psicopatológico em questão.

Tratamento com foco em prevenção primária

O conceito de prevenção primária diz respeito à capacidade de evitar o surgimento das doenças, no caso, os transtorno mentais. Para quem visa prevenir o aparecimento dos transtornos mentais, estudos indicam que um dos principais fatores de proteção é o Suporte Social em todas as áreas, como a afetiva, a familiar, bem como no ambiente escolar, acadêmico ou profissional, além do apoio de amigos. Trata-se uma grande rede de apoio de pessoas com quem se pode contar e tem significativa importância no enfrentamento das dificuldades.

Outros fatores protetores contra as doenças mentais são a prática regular de atividades físicas, manutenção de atividades de espiritualidade ou religiosidade frequentes, além de hábitos cotidianos saudáveis, como preservar uma rotina de sono adequada e um comportamento alimentar educado, priorizando pela Nutrição balanceada e consciente.

A Psicoterapia, com foco em técnicas e abordagens de eficácia cientificamente comprovadas, como a Análise do Comportamento, exercida por um profissional devidamente habilitado, também é importante fator de proteção aliado à Psiquiatria no Tratamento de Prevenção Primária dos distúrbios mentais.

Tratamento com foco em remissão e recuperação

O tratamento objetivando a remissão e a recuperação diz respeito à prevenção secundária, quando um transtorno psiquiátrico já se instalou. Esse tipo de tratamento difere significativamente, dependendo das particularidades de cada paciente, por isso deve ser individualizado. O tratamento pode ser realizado apenas com psicoterapia, em algumas situações, há a necessidade de se associar o tratamento psicofarmacológico ao suporte psicoterápico e, inúmeras vezes, faz-se necessário o apoio de rede de profissionais com atuação multidisciplinar, tais como serviço social, terapia ocupacional, fonoaudiologia, enfermagem, psicopedagogia, nutrição, dentre outros. Em casos  mais específicos, há demanda de internamento hospitalar ou de Eletroconvulsoterapia. Um psiquiatra bem preparado irá indicar o tratamento mais adequado a cada caso em questão.

Vale mencionar a importância dos dos conceitos de resposta, remissão e recuperação. A resposta diz respeito a uma melhora clínica percebida pelo paciente de menos de 50% dos sintomas, a remissão caracteriza que o paciente remitiu de mais de 50% de sua sintomatologia e, dizemos que o paciente atingiu a recuperação, quando está 100% recuperado de todo o sofrimento mental que o acometia. Tem como foco a prevenção de recaídas, essa acontece quando o paciente atinge a remissão, mas volta a mostrar-se sintomático, tendo demanda de ser reavalidado pelo psiquiatra assistente.

Reabilitação

A reabilitação ou prevenção terciária já prepara o paciente para o retorno à sua funcionalidade anterior, para que possa se sentir plenamente capaz em todas as áreas de sua vida. Diz respeito à fase de manutenção, que em psiquiatria, dura no mínimo seis meses, dependendo de cada caso e prepara o paciente para sentir-se curado, independentemente de alta do uso dos medicamentos ou se terá de manter o tratamento farmacológico e psicoterápico apenas a título de prevenção de recorrências. A Recorrência acontece quando o paciente consegue atingir a recuperação, inicia o tratamento de manutenção e, por inúmeros motivos, volta a apresentar a sintomatologia anterior, ou seja, apresenta recidiva dos sintomas, devendo, nesse momento ter reavaliação psiquiátrica pelo médico assistente, com objetivo de retomar a fase de melhora e recuperação clínica. 

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Transtorno do Espectro Autista (TEA)

O que é

O TEA é caracterizado pela alteração do neurodesenvolvimento, com déficits específicos em:

- Linguagem, com dificuldade de expressão e comunicação (dificuldade de entendimento de palavras, perguntas, brincadeiras, repetição de palavras e frases sem sentido ou significado, etc);

- Socialização, com baixo índice de interação social (pouco ou nenhum interesse em se relacionar com outras pessoas, evitação do contato visual, ausência de envolvimento emocional), isolamento social (vivendo em um universo individual e particular);

- Padrões de movimentos repetitivos e estereotipados, como bater palmas, estalar os dedos, movimentação da cabeça ou dos membros, dentre outros;

- Perfil de interesses restritos, como obsessão por um determinado assunto, como esporte, carros, números, animais, etc.)

A caracterização como espectro autista significa que a síndrome se manifesta em ampla gama de intensidade, variando desde casos bem graves, com retardo mental associado, até o autismo de alto funcionamento, no qual o paciente apresenta bom funcionamento da linguagem e da inteligência, com ilhas de capacidades cognitivas.

Não foi estabelecido um consenso sobre a origem e os causadores do TEA, contudo é sabido que fatores genéticos tem papel importante no quadro. Uma das hipóteses aceitas seria a combinação de vulnerabilidade genética e exposição precoce a fatores ambientais ainda não determinados. Há registros atuais do aumento do numero de casos na ultima década, que pode ser decorrente da mudança de critérios diagnósticos e da maior informação da população geral, associado a um aumento de fato no numero de casos.

O diagnostico do TEA é realizado baseado na observação dos sintomas característicos, entrevista com familiares e educadores envolvidos, avaliação neuropsicológica, avaliando linguagem e interação social e avaliação orgânica, determinando o grau de funcionamento e gravidade do quadro.

O tratamento do TEA é multidisciplinar, envolvendo medicação, terapia psicoeducacional, comportamental, fonoaudiológica e orientação familiar.

Compulsões Alimentares: Respondendo as 20 Maiores Dúvidas

1) O que leva uma pessoa a compulsão?
Vários fatores podem estar relacionados à compulsão alimentar, tanto biológicos e hereditários, como a Síndrome de Prader Willi e Kleine-Levin, quando não há sensação de saciedade e o paciente apresenta hiperfagia. Entretanto, a associação com fatores ambientais e comportamentais é mais significativa, quando traumas, experiências pessoais negativas, sentimentos como culpa, vergonha, insatisfação, além de sintomas ansiosos e a manutenção do ato compulsivo, por reduzir ou aliviar sensações de mal-estar.

2) Quais os tipos de compulsão?
Não há essa distinção na literatura médica, contudo alguns tipos de comportamentos compulsivos vêm sendo recentemente estudados com maior frequência e foram reconhecidos como doença, é o caso do comprar compulsivo e mais recentemente o uso compulsivo de computador e internet, além dos já conhecidos jogo patológico, compulsão alimentar e sexual.

3) Qual o tipo mais comum? A que se deve isso?
A compulsão alimentar é a mais prevalente, atinge 4% da população geral e até 6% de obesos, segundo dados da APA (Associação Americana de Psiquiatria). Ela pode estar presente em transtornos psiquiátricos alimentares como a Bulimia Nervosa e o Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP).

4) Quanto à comida, qual a diferença entre comer excessivamente ao perder o controle um dia e comer compulsivamente?
O ato compulsivo isolado, sem associação com doença psiquiátrica, certamente foi algo experimentado ocasionalmente por grande parte da população, motivado por algum contexto social, funcional ou psicológico. Muitos de nós já foi a um rodízio e experimentou vários grupos de alimentos diferentes em um curto período de tempo. A compulsão alimentar se configura uma doença, com inúmeros prejuízos mais amplos, tanto sociais, como funcionais.

5) O comedor compulsivo pode ser uma pessoa que come várias vezes excessivamente apenas nos finais de semana, por exemplo? Ou no período pré-menstrual? Enfim, num período determinado, mas que ocorre com frequência? 
O comer compulsivo periódico pode ocorrer em qualquer fase da vida, podendo ser algumas vezes por mês, como no período pré-menstrual. O TCAP deve ocorrer no mínimo duas vezes por semana, em um período de no mínimo seis meses, portanto, se o indivíduo apresentar pelo menos dois episódios compulsivos, ainda que aos finais de semana por 6 meses tem o diagnostico de TCAP e indicação de tratamento.

6) Na maioria das vezes, a que se deve a compulsão por comida?
Estudos sobre a etiologia ainda são limitados, outros indicam que o sobrepeso e a obesidade são fatores de risco para desenvolvimento da compulsão alimentar periódica e o fator hereditário parece ter alguma relação com o comer compulsivo, mais ainda, fatores psicossociais, como ameaças, abuso sexual, discriminação, além de história infantil de sobrepeso, compulsão alimentar familiar e desavenças paternas também podem ser fatores de risco importantes para o comer compulsivo.

7) Qual a relação que se tem com a comida na atualidade?
Diferentemente do que a humanidade enfrentou em períodos críticos de guerra, epidemia e pobreza, o momento atual é de abundância e facilidade de acesso e oferta de uma diversidade de alimentos a todas as classes sociais, principalmente em grandes centros urbanos.
A comida sempre esteve relacionada à satisfação e em um contexto social, dificilmente se consegue ter um controle pleno de quantidade e saciedade, tornando cada vez mais frequentes a busca de meios para se controlar o peso e os excessos diante da mesa, quando se observa que a moderação é a melhor saída para manter o bem-estar e a saúde.
Em contrapartida, passou-se a observar que havia indivíduos que apresentavam relações patológicas com a comida, chegando a ingerir cerca de cinco a sete mil calorias em curto período de tempo, e que precisariam de uma ajuda especializada para superar esse sofrimento.

8) Como é o processo para se identificar que há compulsão por comida?
O diagnóstico do Transtorno de Compulsão Alimentar Periódico se dá pela observação do próprio paciente ou de familiares se há ocorrência de episódios em que há a ingestão de grande quantidade de alimentos muito rapidamente, em período superior ao convencional, ingerido pela maioria das pessoas, acompanhado de sentimento de falta de controle, de não conseguir parar de comer, sensações de culpa, vergonha, repulsa por si mesmo.
A compulsão alimentar ocorre, pelo menos, dois dias por semana, durante seis meses e não deve estar está associada ao uso de comportamentos compensatórios, como purgação, jejuns, etc, o que exclui, por exemplo, indivíduos que “beliscam” o dia todo pequenas quantidades de alimentos.. Por fim, deve haver sofrimento relativo a esse comportamento recorrente.

9) Como pode ser tratada a compulsão por comida?
O tratamento geralmente tem por base a reeducação alimentar, com base em programas com apoio endocrinológico, nutricional, psicológico e em alguns casos, psiquiátrico, quando se faz necessário o uso de medicamentos para o tratamento de sintomas compulsivos graves, ou comorbidades psiquiátricas, como o Transtorno Depressivo Maior e Transtornos de Ansiedade.

10) O tratamento serve para as outras formas de compulsão?
Não. Geralmente faz-se necessária a avaliação de cada caso isoladamente. A grande maioria dos pacientes terá indicação apenas de tratamento psicoterápico. Entretanto, quando há a observação de alguma comorbidade psiquiátrica, como o Transtorno Depressivo Maior e os Transtornos de Ansiedade faz-se necessário o tratamento medicamentoso, com psicofármacos.

11) Qual a importância dos grupos de apoio como os Comedores Compulsivos Anônimos?
Esses grupos funcionam como uma poderosa terapia de grupo, quando grupos de pacientes que apresentam sofrimentos físicos e psíquicos semelhantes se reúnem, sempre com a mediação de um profissional da saúde mental, com programas e técnicas de reabilitação de Terapia cognitivo-comportamental (os Doze Passos). É uma rede mundial de apoio e tratamento psicoterápico por meio de técnicas de prevenção de recaída, também utilizadas nos outros grupos semelhantes, como Narcóticos Anônimos e Alcoólicos Anônimos, dentre tantos outros.

12) Caso alguém queira ajudar uma pessoa próxima que está no quadro de comedor compulsivo, como deve proceder?
O ideal seria indicar primeiro uma avaliação médica, que pode ser com um endocrinologista ou um psiquiatra, e se seguiria com apoio psicoterápico. O apoio de familiares e pessoas próximas é fundamental para o sucesso do tratamento.

13) Há um novo transtorno alimentar chamado de gordorexia. Como é definido?
A gordorexia se caracteriza pela alteração na imagem corporal, quando o obeso, não se percebe acima do peso, e se vê com corpo de forma física adequada. Essa alteração da imagem corporal faz parte do quadro da Anorexia Nervosa, quando o paciente não se vê magro ou com um corpo adequado, sempre se percebendo maior, mais gordo do que realmente é, essa alteração é maior e mais grave quanto menor ou maior for o peso do paciente.

14) A comida pode ser considerada um vício neste caso do comedor compulsivo?
A alimentação está ligada ao mesmo sistema de recompensas cerebral relacionado à  dependência de substâncias e tem-se proposto que se trate o alimento do comedor compulsivo com um vício. Entretanto, não se pode evitar esse vício, pois o alimento é vital, portanto a abordagem radical e restritiva de um paciente dependente de substâncias é distinta à de um comedor compulsivo, que deve passar a se alimentar de forma moderada.

15) No entanto, diferente do vício com o álcool, a pessoa não pode evitar a primeira garfada, porque ela tem que se alimentar. Não é isso? Como proceder nestes casos?
Exatamente, a mesma recomendação não pode ser utilizada para os dois tipos de pacientes, pois a orientação de evitar sempre o primeiro gole dada para os alcoólicos não pode ser seguida pelos comedores compulsivos, pois não há como evitar a primeira refeição. Como já dito, a abordagem nesses casos é a reeducação alimentar e o controle do ato compulsivo.

16) Às vezes, o vício é com algum grupo alimentar (carboidrato, doce, etc) que é o alvo da compulsão? Ou não se trata dessa forma?
Alguns estudiosos sugerem que poderia haver dependência de carboidratos ou de açúcar, de acordo com a própria queixa do paciente, e acabam tendendo a restringir tal grupo alimentar. O tratamento ideal não deve ser restritivo e nem proibitivo, pois o paciente deve aprender a apreciar todos os tipos de alimentos de forma saudável.

17) É verdade que o comer compulsivo não está entre os distúrbios categorizados na classificação internacional das doenças segundo a Organização Mundial da Saúde?
Sim. Por quê? Ele só foi regulamentado e reconhecido como doença em 1994, quando a essa classificação já havia sido feita, em 1992. Ele certamente entrará no CID-11.

18) Mas a Associação Psiquiatríca Americana já a identifica como patologia?
Sim, no caso do TCAP, ele está presente no DSM-V. E o Brasil, como a classifica? O Brasil usa o CID-10 para classificar as doenças e o TCAP está situado nos Transtornos Alimentares Sem Outra Especificação (F50.9)

19) A compulsão alimentar é identificada com mais frequência nos adultos?
Sim. Em que faixa etária? Há dados que sugerem que a prevalência é maior na década dos 20 e que diminui após os 25 anos.

20) E nas crianças, a compulsão alimentar pode ser provocada na infância? Por meio dos pais?
O comer compulsivo ainda está sendo identificado apenas em adultos na segunda ou terceira década de vida. Atualmente, estão começando a surgir estudos sobre o comportamento compulsivo alimentar em crianças, já que, na prática clínica, pode-se observar que existem diversas com esse tipo de disfunção alimentar, e a maioria delas tem relação direta com o comportamento e a educação alimentar dos próprios pais.

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